MINHA EXPERIÊNCIA NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ.

 

 

 

A Vida, apesar de não ser um mar de rosas, para nenhum ser humano, poderia ser bem amenizada para nós portadores de deficiência física, quando tentamos entrar no mercado de trabalho. Não é fácil encontrar tantas barreiras arquitetônicas, salas de aula de difícil acesso, necessitando às vezes subir por escadas perigosas. Acesso a banheiros, humanamente impossível entrar algum usuário de cadeira de rodas... Mas, mesmo assim, nós somos aplaudidos e admirados por professores e colegas, enquanto estudantes universitários. Então, vem a triste realidade: terminamos a graduação... Segue-se a pós graduação, a ambição de continuar a pesquisa e dedicar-se ao ensino dos jovens universitários. As portas se fecham... Começam as torturas psicológicas, difíceis de provar. Estou há vinte anos lecionando em uma universidade pública... Saldos, tive muitos... Reencontrar ex alunos, hoje médicos, dentistas, farmacêuticos, dentistas, biólogos, enfermeiros, químicos, agrônomos, etc, que relembram com carinho o que fui para eles, é muito gratificante para mim. É claro que nem todos gostam da gente pois sou muito rigorosa, mas os bons alunos estão na universidade para serem bons profissionais. Por trás do palco, tive que passar a VIDA escutando críticas, quando se tornava necessária uma licença para cirurgia. Na verdade, meu maior terror nunca foi o bisturi ou minha turma de branco, mas sim a hora de entregar a licença ao Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da Universidade Federal do Ceará. Muitas vezes meu retorno à Universidade vinha sempre com perguntas sobre aposentadoria... E isso acontecia, apesar de ter me submetido a cirurgias que nada tem a ver com meu problema genético - como há dois anos, uma catarata galopante, que em dez dias deixou-me com os dois cristalinos opacos, tendo que num espaço de vinte dias operar as duas vistas. Minha preocupação em não perder a visão foi terrível - mas me explicar ao departamento onde ensino também foi um terror. Enfim, mais limitações existem: o uso de bengala, depois muletas canadenses e agora, muitas vezes uso a cadeira de rodas. Nas aulas teóricas, os alunos tiram minha cadeira do carro e a colocam na sala de aula... O estrado de madeira que fiz para ficar em pé dando aula foi substituído pela cadeira de rodas. Eu poderia contar muito sobre o que me magoou, fez e ainda me faz sofrer, para continuar na sala de aula e laboratórios, mas estou apenas querendo mostrar que, em se tratando de mercado de trabalho, tudo é muito difícil no BRASIL. Para nós, portadores de deficiência física, é muito pior... Mas vamos continuar a luta... As Universidades apesar de contarem com muitos doutores de diplomas, são muito escassas de doutores de VIDA !!!

Célia Regina Vieira Bastos.
Profª. Adjunta de Química Orgânica da Universidade Federal do Ceará

 

 

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CÉLIA DE CRISTAL - Deficiente Física. Será que eu sou?
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