A PEQUENINA GRANDE, CÉLIA REGINA



Célia e suas crianças no Hospital Infantil "Albert Sabin" - Dia das Crianças, 2004

Recebi uma incumbência de Célia Regina, uma pessoa muito especial para mim: formatar "Minhas Crianças de Cristal". Com prazer passeei pelas histórias de seus meninos. Posteriormente, eu me ofereci para repaginar seu site, sabendo que seria uma oportunidade de fazer vibrar o meu coração no mesmo diapasão desta pequenina mulher. Ao término de cada depoimento, de cada encontro descrito, de cada luta e homenagem, mais admiração eu sentia por esta mulher forte, decidida, lutadora. Ao contrário de seus ossos, Célia nunca se quebrou; sua personalidade não se fragmentou, suas atitudes e coragem jamais se fraturaram... Não se conformou com seu destino nem com o futuro que lhe era prognosticado, pelo preconceito e pelos poucos avanços da Medicina, na sua infância e adolescência. Oriundas de uma família abastada, fato que minha pequenina grande omite em seus textos, Célia e sua irmã Lina, também acometida da mesma síndrome, contando com o apoio de seus pais, enfrentaram a vida com garra conseguindo mais do que muitas mulheres "normais" de sua geração. Poderiam ter se acomodado e passado a vida sendo sustentadas pelos recursos financeiros de sua família. Quantas mulheres de nossa idade não fizeram isso? Aquelas que batalharam por uma profissão são quase exceção! Pois nascidas em uma época em que as mulheres se acomodavam em ter como profissão "prendas do lar", Célia e Lina tornaram-se, respectivamente, Farmacêutica e Médica. Conheço suas histórias de vida e suas lutas e as admiro profundamente. Não somente a elas mas também aos seus pais, responsáveis diretos e coadjuvantes de suas vitórias. Incluí esta minha homenagem em seu site, sem o seu consentimento, mas espero que não se zangue comigo. Achei que deveria grafar o meu depoimento.


Hospital Infantil "Albert Sabin"- Dia das Crianças, 2004

Célia e Lina são primas de meu marido, portanto, convivo com elas desde o final da década de setenta, quando vim morar em Fortaleza. Antes disso, Lina já se encontrara comigo no Rio de Janeiro, quando de sua residência médica no Hospital Fernandes Figueiras. Recordo-me que um dos médicos chefes da residência médica deste hospital, trabalhava comigo na Maternidade Praça XV. Receosa que ele não a aprovasse na entrevista, pela sua deficiência, consegui um encontro entre os dois. Lina compareceu acompanhada por sua mãe Abigail. Ao final do encontro, o colega me disse ter se impressionado, não apenas com a decisão da moça, mas com a coragem da mãe que permitia a vinda da filha para o Rio de Janeiro e acreditava nela. "E ela nem precisa trabalhar...", afirmou-me surpreso o colega, baseado nos visíveis sinais de poder aquisitivo da família. Por todos esses anos, acompanhei com carinho o desempenho de Célia e Lina, a sua luta e as suas conquistas. Quem da nossa geração conseguiu um título universitário? Qual de nós concluiu um mestrado e se tornou professora em uma universidade federal? Pouquíssimas, com certeza. Então, quem é "normal"? Qual de nós é a mais forte e corajosa? Quem melhor demonstrou sua capacidade? Uma vez, Célia me disse que não se lembrava de um dia em toda a sua vida onde a dor não estivesse presente. DOR!!! O que sabem de dor as pessoas? Apenas nós, profissionais de saúde, entramos em real contato diário com ela. Mesmo assim, poucos de nós realmente a sentimos. E não há quem não se queixe de sua qualidade de vida... Quem conhece a história de Célia e Lina não tem o direito de reclamar de sua própria existência. Claro que, apesar de sua força interna, elas não teriam alcançado suas metas sem o apoio e o amor de seus pais. Abigail e Hugo sempre estiveram presentes ao lado de suas filhas, apoiando-as, confortando-as, estimulando-as ao progresso e à aceitação de suas limitações, sem acomodamento. Certa feita, conversando com Dona Abigail sobre a educação dos meus filhos, as críticas que recebia pelos limites que lhes impunha e as cobranças que estabelecia, ela concordou com minha postura. Disse-me que nunca diferenciara as meninas Célia e Lina das outras irmãs; sempre exigira, igualmente, das cinco garotas, um bom desempenho escolar e empenho nas suas atividades cotidianas. Explicou-me, com sua sabedoria invejável, que não seria justo para com as outras três filhas, proteger as duas mais novas "SÓ porque elas tinham Osteogenesis Imperfecta". E que elas também precisavam aprender que a vida não as pouparia se não aprendessem a lutar e enfrentar seus próprios obstáculos, vencendo sozinhas suas próprias dificuldades. Minha homenagem aqui, então, não é apenas dirigida a Célia e Lina, mas principalmente aos seus pais Abigail e Hugo. E quanto a você, Célia, minha querida pequenina grande, espero que continue a colocar nos rostinhos de suas Crianças de Cristal, um sorriso feliz por se sentirem amadas. Prossiga sendo um exemplo, não só para os deficientes físicos mas, principalmente, para os deficientes morais. Esta é a pior deficiência. Não a sua.

 

Beijos da Dora
Fortaleza, 23 de outubro de 2004

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira (Maux)

 

 

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CÉLIA DE CRISTAL - Deficiente Física. Será que eu sou?
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