FANTASIAS DE UMA ADOLESCENTE - 33 ANOS DEPOIS.

 

 

CÉLIA com seus ídolos da adolescência Leno e Lilian

 

LENO E LÍLIAN, uma dupla da JOVEM GUARDA, surgida com grande sucesso em 1966 e 1967... Eu era uma menina de 12 anos, e eles para mim representavam uma marca registrada... Em 1966, sofri uma fratura rara para minha idade, na cabeça do fêmur esquerdo. Passei seis meses com gesso numa perna inteira, em metade da outra e no tórax... Em 1967, fui ao Rio de Janeiro submeter-me a uma grande cirurgia para retificar o fêmur direito, quatro fraturas e mais  três meses gessada. Eu colecionava  fotos, álbuns, discos... Como minhas fantasias de ter amiguinhos como Leno e Lílian amenizavam minhas dores... Eu me questiono como tinha criatividade para transformar em momentos felizes aquelas horas tristes e doídas. A Celitinha, Celinha, Celita, Colibri - diminutivos que davam para alguém tão miúda, os amigos da escola, os primos, as tias, a minha mãe - usava roupas imitando seus ídolos... Depois de 33 anos, resolvi assistir, em 25/09/1998, um show dos meus ídolos de menina. EU, Célia Regina, ia mostrar à Celitinha, porque foi  necessário amenizar... Como sempre aventureira e compulsiva, corri riscos mas nos conhecemos: eu, Leno e Lílian. Trocamos fotos e telefonemas. Enfim, esta minha carta a Lílian, mostra muito da adolescente que eu fui.

 

Fortaleza. 28 de setembro de 1998.

Querida Lílian

Sonhos, fantasias de uma adolescente que tinha tudo para ser diferente das outras, transformam-se em REALIDADE, confundindo a pequena linha que separava a fantasia da realidade. Uma menina que um dia resolveu eleger como AMIGUINHOS IMAGINÁRIOS, jovens que cantavam, andavam, eram bonitos, tinham um futuro brilhante. Uma menina que não esqueceu também que existiam muitos amigos reais na escola, na família, vizinhos e que com ela também dividiam músicas com letras românticas, ídolos certinhos, que também eram acompanhados de pai e de mãe, ídolos que como ela pareciam felizes, sem precisar tomar drogas... Uma pequenina adolescente que elegeu uma dupla de jovens LENO e LÍLIAN, como marca registrada na sua VIDA... Como amiguinhos de verdade, com quem podia contar até nos momentos em que precisava amenizar as dores fortes das cirurgias, o terror do cheiro de éter e das salas de gesso. Que tentava trocar as preocupações com os resultados das cirurgias, com o receio de que seus amiguinhos, às vezes imaginários, às vezes reais se separassem. Apesar de dividir o tempo estudando, idas a hospitais, tratamentos de fisioterapia, parar e depois continuar, existia tempo suficiente e especial para colecionar tudo que aparecia em revistas sobre seus amigos de FANTASIA... Pedir aos pais dinheiro para ter todos os discos que lançavam. Dentro de tantos SONHOS, FANTASIAS, RESPONSABILIDADES, REALIDADES, eu queria ser como minha amiga LÍLIAN - não invejava, só a imitava. E tinha meias arrastão, botinhas... Queria também ter um amiguinho como o dela, LENO... E ficava triste se aparecia em alguma reportagem que LENO e LÍLIAN, iriam se separar. Sempre o questionamento, AMIGOS DE VERDADE sempre serão amigos... As fantasias iam aumentando, como tintas de um pincel em uma tela... Como o som saindo em cordas de violino... com sentimentos mais amadurecidos... Mas tudo muito salutar, sem nunca prejudicar a fuga de uma realidade que existia: ESTUDAR MUITO PARA UM DIA TAMBÉM TER UMA PROFISSÃO! Muitas vezes, de forma ansiosa, esperava resposta a minhas cartinhas infantis, como a que foi enviada trocando a letra de EU NÃO SABIA QUE VOCÊ EXISTIA. Mas esperar era uma constante... Quebrava a perna - esperava de três a seis meses dentro de uma armação de gesso; caia e sofria uma distensão na perna - esperava um ou mais meses para voltar a caminhar... Por que não continuar esperando por uma resposta de meus amiguinhos? Eles tinham muitas cartas a responder, justificava. Na escola até os professores perguntavam pelo LENO E LÍLIAN...  Todos que podiam davam-me fotos, postais e até uma amiga que tinha jeito para desenho me fez um pôster, copiando uma foto de meus amiguinhos, com lápis e papel. Eu passei a conhecer tudo da vida de meus amigos... Coisas simples, data de nascimento, sobre suas famílias, o que gostavam ou não... E será que a gente pode apagar o que foi vivenciado tão intensamente na adolescência? Não... AMIGOS de verdade são para sempre. Como muitos que ainda cultivo reencontrar, colocar as novidades em dia, relembrar os momentos que passamos juntos. Da mesma forma que tive que seguir outro caminho, muitos de meus amigos também seguiram rumos diferentes... Eu tive que estudar muito para entrar em uma universidade, depois obter grau de Mestre... Ensinar química a jovens de uma geração tão diferente da nossa. As vezes tão revoltados por tão pouco, que se escondem e se acabam em um mundo de drogas e competições. E meus amiguinhos que rumo tomaram? Como vou saber se em parte eram FANTASIAS, mas na verdade eles existiam? E como sempre gostei de análise e analisava tudo e todos... Talvez minha análise fosse REAL... Um Leno tímido, circunspeto, mais calado. Uma Lílian mais comunicativa, com uma auto estima mais elevada, deixando transparecer mais sentimentos... Continuei levando a VIDA... Que apesar dos pesares foi e é bem vivida... Uma vida com ambições, sentimentos, lutas, garra. Sonhos... Fantasias e muita realidade... Uma vida da qual não apaguei nenhuma das etapas, pois todas foram importantes. Senso de critica, autocrítica, sempre sabendo o que era importante para mim. E após 33 anos que conheci MEUS AMIGUINHOS, LENO e LÍLIAN, agora eu, uma mulher vivida, amadurecida, meus amigos que vivenciaram etapas que eu não mais conhecia, resolvi voltar ao passado. Mostrar a LENO e LÍLIAN, mostrar a outras gerações, que FELICIDADE é feita de momentos... Os difíceis podemos amenizar, podemos sonhar, fantasiar , sem fugir da realidade. E SENTIMENTOS DE VIDA, não tem nada com padrões estipulados... Foi assim que, com muitas dificuldades de acesso para me locomover, eu fiz questão de me apresentar a MEUS AMIGOS DE ADOLESCÊNCIA, LENO E LÍLIAN, e mostrar também que eu existia. Fiquei muito feliz que minha análise, pareceu real. Ao conversar com você, não eram ídolos; nós adultos, trocando lindas recordações de UMA GERAÇÃO , que muitos souberam acertar. Lílian querida, estou lhe enviando um depoimento meu, de VIDA, que coloquei na internet. Você pode me conhecer melhor, mas como a menina que lhe conheceu com 12 anos, saiu feliz de nosso lindo encontro... Beijos especiais para você, Leno... para sua Priscila e a Giovana, de quem você me prometeu a foto.

Com carinho,

Célia

 

 

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CÉLIA DE CRISTAL - Deficiente Física. Será que eu sou?
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