CRIANÇA NÃO TEM PRECONCEITO

Célia Regina e sobrinhos netos
|
Tenho várias experiências vivenciadas
que preconceitos quem faz são os adultos... Quando adolescente, entrava um dia
na escola, toda
gessada, perna esquerda, tórax, metade da perna direita em uma cadeira de rodas meio
deitada. Então, um garotinho, mais novo que eu, acompanhou-me até a sala de aula. Eu achei
que ele ia perguntar algo sobre o meu físico... Quando entrei na sala de aula, ele
levava um álbum de figurinhas de artistas da TV que eu também fazia. Meigamente
perguntou-me: - VOCÊ TEM ALGUMA FIGURINHA PARA TROCAR COMIGO? Nunca esqueci este menino,
pois ele me mostrou que as crianças tem sempre os mesmos interesses, deficientes ou não...
Em um passeio com Mel, minha sobrinha de 4 aninhos, na hora de estacionar meu carro adaptado, um carro estacionava ao lado. Mel falou: - Tia, vamos descer logo; o cara vai xingar por que está atrapalhando. Expliquei a ela: - Mel, ele está vendo que tem uma criança e uma deficiente. Então, Mel olhou admirada e falou: - E tu é deficiente, tia??? Ela nasceu convivendo com a tia: 112cm de estatura... muletas... aparelhos auditivos... cirurgias. MAS A TIA ESTAVA DIRIGINDO O CARRO PARA LEVÁ-LA A PASSEAR!!! Bernard, meu sobrinho mais velho,veio passar as férias em Fortaleza. Ele tinha aproximadamente 8 anos. Então, meu menino, logo no inicio das férias apareceu com catapora. Ele não teve febre, não ficou abatido, mas como é bem branquinho, as manchas de catapora ficaram bem aparentes e chamavam a atenção da pessoas. Eu sabia que não havia risco de contágio, mas visitar os primos... Podiam achar estranho e terem receio do contágio. Como uma super tia, decidi levar Bernard, no sábado a noite, a uma feirinha de artesanato e depois à pizzaria. Enquanto andávamos de mãos dadas, muitas pessoas olhavam e até perguntavam, de forma curiosa, se ele era meu filho. Eu, com 112 cm de estatura, usando uma bengalinha para me locomover... Meu menino, loirinho, fisicamente normal... Enfim, Bernard falou baixinho para mim: - Tia, olha todo mundo olhando para as minhas cataporas!!! Ele nem se tocou que a tia Célia era quem estava chamando atenção... Nildinha, de 5 aninhos, filha de um casal de amigos, cujo pai é deficiente físico, foi comigo e a mãe para o aniversário de Adrianinha, uma menininha, como eu, portadora de osteogenesis imperfecta. Explicamos, antes de chegar, que Adrianinha era uma criança frágil, como a tia Célia. A menininha, tinha problemas bem mais sérios do que os meus... Nildinha adorou brincar com a pequena tímida, com perninhas e braços todos tortos, devido as mil fraturas... nada perguntou. Ao entrar no meu carro para voltar, Nildinha comentou: - Mãezinha, eu adorei brincar com aquela menininha toda amassadinha... Outra da MEL: Em 19 89, Mel estava com 4 aninhos... Eu voltava de uma cirurgia auditiva cujo resultado não foi o esperado. Então, passei a usar prótese auditiva. Era diferente para ela. Uma tarde, eu estava em uma loja no shopping e Mel passou com a babá, que vinha da padaria. Ao me ver, através da porta de vidro, entrou eufórica, abraçando- me e beijando-me e disse: - Tia, eu só te conheci porque vi o aparelho de ouvido. Eu comentei: - Mel, como tu enxergas bem... Mel queria dizer que minha pequena estatura, as muletas, ela nasceu vendo, mas o aparelho auditivo era novo para ela... Apenas um detalhe a mais... No meu retorno do Rio a Fortaleza, Mel foi me buscar no aeroporto com a mãe, minha irmã. Lá, ela viu Nadja, uma grande amiga minha que é tetraplégica. Nesta época eu ainda não usava cadeira de rodas... Mel falou para a mãe: - Mamãe, olha a amiga da tia Célia que anda de bicicleta de cadeira... Lia (7 anos) e Gabriel (2 anos) são meus vizinhos desde que nasceram, praticamente sobrinhos. Meus sobrinhos de coração, quando vão me beijar, chegam devagarzinho ao se aproximar, porque expliquei a eles, desde pequenos, que tia Célia pode se quebrar. Nem sei o que pensam, mas curtem meu apartamento, vem sempre brincar comigo, passeiam no meu carro. São crianças elétricas, mas entendem que uma Tia diferente fisicamente, faz muito mais que as outras tias... O aniversário de 7 anos de Lia, teve um banho de piscina no sábado para as amiguinhas. No domingo, seria o almoço com os avós. Lia sabe que adoro nadar, então veio me convidar e disse: - Tia Célia, hoje é o banho de piscina para as crianças; você vai - amanhã são os adultos. Eu sou menor que ela em estatura... Na piscina, Lia, as amiguinhas e primas, brincavam mas entenderam que não podiam me machucar... No meu prédio, como Lia e Gabriel, vi muitos nascerem e crescerem... Sempre encontro alguém no elevador com o tênis igual ao meu... Tereza Raquel, aproximadamente 4 anos, ganhou um tênis All Star, botinhas como as que uso, e comentou feliz que também tinha tênis como os da Tia Célia. Eu estava em uma praça de alimentação , minha bolsa tiracolo colocada em minha cintura, enquanto lanchava. Um loirinho, que mal sabia falar, aproximou-se e insistiu com a pergunta: - QUEM TE AMARROU AQUI? No início não entendi; falei dos aparelhos auditivos, disse para que servia, da compensação do sapato, muletas e ele insistia com a pergunta... Então, entendi que ele estava mais preocupado com a minha bolsa, porque parecia um cinto de segurança de carro, e achou que alguém poderia ter me amarrado... |

l Home
lContato
l Depoimentos
l Homenagens
l Encontros
l Imagens
l Cristal
Azul l Links
l
CÉLIA DE CRISTAL - Deficiente Física. Será que eu sou?
Repaginado
por Maux - Todos os direitos reservados.