Nossa Casa, Nossa Vida, Nossa História...

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Nossa Casa... A casa em que nasci há 38 anos!!! O lar que nossos pais construíram e tentaram nos unir há 40 anos... Foi embora a minha infância - uma etapa bem longa de minha vida. Recordações que me ensinaram a viver e a sobreviver. Nossa casa... Sempre readaptada as nossas necessidades e limitações. Uma casa bonita... grande mas aconchegante. O verde sempre foi uma constante. Uma combinação de cores diversas que enfeitavam sempre o jardim de papai...
Uma casa de dois andares que não combinava com as limitações de duas filhas com dificuldades de andar. Nosso quarto foi construído embaixo. Éramos adolescentes. Não era só um quarto... Nesse local foram vivenciados incontáveis momentos de desafios físicos e intelectuais. As dores, decepções e lágrimas não conseguiram vencer a nossa vontade de estudar e entrar no mundo dos adultos normais. Os retornos aos bisturis e salas de cirurgia não impediram termos uma vida independente. Sempre estávamos mais distanciadas da outra população, que pensava viver mais que nós duas. Geograficamente ficávamos mais distantes do que era considerado perfeito. Cadeirinhas com rodízios, idealizadas por papai; triciclos coloridos e confortáveis, escolhidos por mamãe, eram meu meio de locomoção para atingir áreas planas. Eu podia sozinha sair do quarto, atravessar uma sala onde mamãe costurava e nós brincávamos; atravessar mais ainda o local onde fazíamos as refeições e chegar até o portão de nosso jardim, pedalando ou me apoiando em cadeirinhas especiais, por uma longa passarela de pedras lisas, com pouco atrito. Jardins belos, ornamentados com plantas contendo inúmeros pigmentos de cores diferentes. Aquela casa se pudesse falar ensinaria como transformar lágrimas em sorrisos. Ensinaria do quase nada transformar uma imensidão de forças, ambições, lutas e vontade de viver. Lá foram faladas, pensadas e vivenciadas uma mistura de diferentes valores de vida. Para alguns a perfeição física deixou de ser o ideal; para outros esses sentimentos foram mais aguçados. Para outros ainda a espiritualidade passou a ser lei. Estas misturas de valores foram transmitidas as nossas seis crianças, a terceira geração a ocupar a nossa casa... E como chegaram na hora precisa!
Há 19 anos veio o primeiro. Ele não era um morador do dia a dia. Em alguns períodos do ano chegava para alegrar a nossa casa. Meus carrinhos, que eram uma mistura de meio de locomoção e de brincadeiras, foram transformados em brinquedos de férias, e assim, apesar de alegrarem adultos e crianças foram se acabando... Como tudo na vida que tem uso constante um dia tem um fim, os carrinhos choraram, alegraram e acabaram...
Outras crianças foram alegrando os jardins verdes de papai. Desta vez, felizmente, mais sorrisos, muitas brincadeiras, pouca ou nenhuma lágrima real.
A angústia de nossa infância, para os outros, parecia ter acabado. Mas, nunca morrem essas recordações.
As bonecas passaram a ser utilizadas pela terceira geração. Tínhamos sido cinco meninas... Muitas bonecas, casinhas, continuaram a ter uso e dar alegria aos netos de meus pais.
Era como se uma etapa de minha vida tivesse acabado. Os nossos sentimentos infantis amadurecem mas não morrem. Nós podemos matar o que é matéria; o que é espiritualidade sobrevive.
Nós adultos somos o produto do que foi trabalhado em nós quando crianças. A casa tinha festas que para mim eram ricas - não combinavam comigo. Na casa se distribuíam presentes de Natal que toda criança, mesmo sentindo dor, fica feliz em receber. Eu sempre gostei da árvore de Natal com as crianças...
Todo ano que passava era desejado FELIZ ANO NOVO... Mesmo sabendo que a incógnita era uma constante, que as dores e decepções eram reais... Como os meus pais, e dependendo de minhas necessidades, fui readaptando ainda mais o espaço que era meu. O AZUL para gerar dias mais tranqüilos; motivos florais; SOM... muito som. Eu não esperava que pouco antes de deixá-la o som começaria a sumir... Carros reais foram readaptados. Entravam e saiam dirigidos por mim e foram me fazendo sentir que existiam outros ambientes, outras opções. Questionei-me se a mudança era o ideal; senti que era uma necessidade. Eu não teria a segurança de casa... Ela um dia ia morrer e era o momento de eu me adaptar em outro lugar. No MEU lugar... Eu precisava sair antes que acabassem com ela.
Daquele jardim eu me despedi, já adulta, com um banho de mangueira,
juntamente com algumas da terceira geração... Lembrei-me da chuva e, de
quando criança, dos banhos de chuva... O AZUL já tinha sido transportado.
O andar de cima não era meu - eu não tinha acesso a ele. O verde da grama
morreu... Em 38 anos foi a primeira vez que vi uma grama morta. O coelhinho
de estimação de papai também morreu. Ele representou a perda de muitos
animais de estimação que lá tivemos. Aperta-me uma angústia... muitas
recordações... uma saudade... a nossa casa...
Fortaleza, 11 de janeiro de 1992 |


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CÉLIA DE CRISTAL - Deficiente Física. Será que eu sou?
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